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"A mamadeira de piroca ganhou as eleições no Brasil", diz Wagner Moura

Wagner Moura foi para Cuba – literalmente. Tantas vezes “aconselhado” em redes sociais a ir para a ilha socialista que parece até que o ator resolveu aceitar a sugestão. Mas o motivo foi outro: as filmagens de “Wasp Network”, longa do cineasta francês Olivier Assayas (de “Depois de Maio”). Só que antes de embarcar para a terra de Fidel, em fevereiro, o baiano fez uma passagem relâmpago pelo Festival de Berlim, onde aconteceu a première mundial de “Marighella”, sua estreia como diretor.

Biografia de um dos líderes da luta armada contra a Ditadura Militar, nos anos 1960, o filme ganhou aplausos nas sessões de imprensa e de gala. Mas as críticas foram divididas: em geral, questionaram a visão muito parcial de Moura sobre o personagem (o longa tem um viés abertamente de esquerda), mas louvaram a urgência de narrar uma história de resistência no contexto brasileiro bolsonarista de 2019.

Divulgação
Cartaz do filme “Marighella”, dirigido por Wagner Moura Imagem: Divulgação

Exatamente por ter um forte diálogo com o Brasil conservador de hoje, a ideia era que o filme estreasse o quanto antes, mas ainda não há previsão de chegar aos cinemas. A distribuidora Paris Filmes, já encarregada do lançamento desde a fase de produção, diz, por nota, que a entrada em circuito será definida “em função do cenário previsto no calendário de estreias, que, por ora, estaria muito competitivo”.

Por conta das filmagens em Cuba, Moura só teve um dia em Berlim para promover seu filme. E o UOL conversou com o ator e diretor. Na entrevista, Moura é bastante combativo ao governo Bolsonaro e à direita brasileira. Diz de onde vem sua admiração por Carlos Marighella e que vê em parte da juventude brasileira atual características do guerrilheiro. Relata que se sente vítima de uma campanha de descrédito e que existe no país uma cruzada contra a arte. Confira.

O fascínio por Marighella

Comissão da Verdade do Estado de São Paulo/Reprodução/BBC
Marighella em 1939, em uma de suas prisões; ele foi um dos líderes da luta armada contra a ditadura Imagem: Comissão da Verdade do Estado de São Paulo/Reprodução/BBC

“Sou de Salvador, que também é a terra de Marighella. Ele sempre foi um nome importante e conhecido para todos os interessados na história da resistência do Brasil. Não era somente alguém que participou da resistência à Ditadura nos anos 1960 e 1970, mas também da resistência em toda a história do país em geral – como a dos Malês [1835], de Canudos [1896]… O Brasil tem um histórico de resistência, é um dos países com uma das maiores diferenças sociais do mundo. Então é natural haver isso.

Nasci em 1976, Marighella foi assassinado em 1969, então eu nasci durante a Ditadura. Mas o que eu acho meio louco é que minha geração é muito diferente da anterior, a de quem lutou contra [o regime militar]. Os jovens de hoje em dia são mais próximos daquela geração – se você vai às escolas públicas hoje, encontrará uma juventude algo ‘marighellesca’. Minha geração já era mais alienada, a ditadura estava em transição para a democracia.”

Então eu tenho fascínio por quem quis fazer algo não só por si mesmo. Eu cresci pensando em família, profissão, coisas do capitalismo, mas houve um momento no mundo em que pessoas morriam por seus ideais. Que lutavam não só por elas mesmas, mas também em nome das outras pessoas.

Campanha contra a arte

“Meu pai era um sargento da Marinha. Não falávamos de política. Acho que comecei a pensar em política quando fui para o teatro, em Salvador, quando tinha uns 15 ou 16 anos. A arte é sempre um ambiente que te faz pensar. E é por isso que agora, no Brasil, há uma grande campanha contra a arte e a cultura. Contra o pensamento crítico, contra os livros. E se você estudar a história dos governos fascistas pelo mundo, verá que esses são os primeiros sinais, que isso é o vento que antecede a tempestade.

Isso e a mudança semântica, que também acontece agora no Brasil. Ou seja, as pessoas começam a falar: ‘Ah, não foi o ‘Golpe de 1964’, foi o ‘Movimento de 1964’ ‘. Ou: ‘A ditadura não foi tão severa no Brasil, foi mais branda do que no Chile e na Argentina’. Esse tipo de porcaria.

Acredito que é difícil afastar o Brasil disso agora, já que temos um governo de extrema-direita. Esse [o filme] é o tipo de narrativa que as pessoas não querem ouvir, especialmente depois de toda essa campanha contra a arte. E também contra mim, em particular.”

A participação da ALN

“Eu fiz o filme que eu queria ter feito, estou feliz com ele. Todos os personagens são amálgamas de pessoas reais diferentes. Não quis que ninguém da ALN [Ação Libertadora Nacional, grupo guerrilheiro de Marighella] fosse ao cinema e se reconhecesse. A ALN era um grupo grande, com centenas de pessoas, e no filme você vê 12. É uma ficção, não é um documentário, há muitas situações que nunca aconteceram, há muitos personagens que foram inventados. Mas o filme é bastante ancorado em estudos que tínhamos.

Eu já estava interessado no assunto, mas [o jornalista] Mario Magalhães lançou o livro dele [‘Marighella: o Guerrilheiro que Incendiou o Mundo’, no qual o filme se inspira] em 2012, e nós filmamos em 2017. O roteiro foi muito rigoroso, muitas pessoas que fizeram parte da ALN e da guerrilha conversaram com a equipe. Foi um processo muito longo. Ensaiamos o filme como uma peça de teatro por quase dois meses e meio.”

Preparado para tudo

A única censura, ou melhor, o único boicote que sofremos foi financeiro – ninguém queria dar dinheiro a esse filme. Vai ser extremamente difícil lançar. Eu espero gente jogando merda na tela, vaiando o filme, agressões físicas. Estou preparado para tudo. Essas coisas provavelmente vão acontecer. Ao fazer o filme, claro, disseram que iam invadir o set e dar porrada, blá blá blá, mas não aconteceu – graças a Deus. Não quero que a esquerda, em especial, vá ao filme esperando um documentário sobre Marighella, porque esse trabalho só funciona como ficção. Se você vê o filme tentando achar personagens reais e etc, vai ser decepcionante.

Mamadeira de piroca

John MACDOUGALL / AFP
Wagner Moura fala sobre “Marighella” no Festival de Berlim Imagem: John MACDOUGALL / AFP

“Já está acontecendo uma campanha de descrédito de minha pessoa. É horrível, mas estou pronto. Antes de vir para Berlim, dei entrevista para o portal de esquerda Brasil de Fato. No final, disse que adoraria ter uma troca de ideias com alguém da direita brasileira. Mas quando eu olho para o espectro da direita no Brasil, eu não vejo ninguém com quem eu de fato gostaria de sentar para conversar, porque são tão agressivos, medíocres.

Logo depois de dizer isso, achei que muitas pessoas gravariam vídeos dizendo: ‘Wagner Moura, deixa eu te explicar as coisas’, provando que eu estou errado. Mas o que fizeram? Um vídeo dizendo que eu estava cheirando cocaína quando gravei a entrevista. Eu estava com rinite, então mexi no nariz algumas vezes, mas editaram um vídeo só com essas partes. Então esse tipo de resposta só prova quando eu digo que são medíocres, porque foi o que instigou o argumento ad hominem, de quando você não ataca a ideia de alguém, mas a própria pessoa… e com mentiras… Eu não sou capaz de responder a esse tipo de coisa: eles me provam que estou certo. O que é louco é que, seja lá o que eles fizerem, funciona.”

No Brasil, quem ganhou as eleições? Não foram só os erros da esquerda. Coisas como a mamadeira de piroca. A mamadeira de piroca ganhou as eleições no Brasil! E não estamos falando só do Brasil: fiquei sabendo que Donald Trump mente 11 vezes por dia. Vivemos em um momento em que a verdade não importa. Não importa! Seja lá o que fizerem [a extrema-direita] – dizer que estou cheirado, ou que a esquerda distribuía a mamadeira de piroca – funciona.

Bolsonaro e as artes

“Acho que há uma razão para que a arte seja atacada e criticada. Não acho que a arte tenha o poder de mudar [a realidade], mas claro que é algo que faz as pessoas verem e pensarem sobre as coisas. Nenhum país se desenvolveu sem cultura, sem se [auto]observar.

Nosso papel é colocar um espelho na frente das pessoas de forma que possam se ver, se identificar e compreender o que está acontecendo com elas. E quando falo de cultura, não falo só de ‘arte’, mas a cultura que os indígenas produzem, a que os negros e moradores de favela criam, o funk, o rap… tudo isso vai ser destruído por um governo que não quer ver nada disso, que não quer que seja disseminado, que não respeita isso.”

Vocês acham que Bolsonaro já leu um livro? Honestamente: que já foi a um teatro? Não! Isso não tem importância para essas pessoas, e elas não querem que essas narrativas sejam ditas. O [meu] filme vai ser um dos primeiros produtos culturais do Brasil que vai ser abertamente contra esse grupo que tomou o poder – aliás, democraticamente. Mas meu filme não é uma resposta a Bolsonaro: honestamente é bem maior que Bolsonaro.

Marighella x Che

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Seu Jorge com Wagner Moura nas filmagens de “Marighella” Imagem: Divulgação

“Marighella é bem diferente de outros revolucionários. Na Argentina você tinha os Montoneros. No Uruguai, os Tupamaros. O movimento não foi só no Brasil e na América do Sul. Houve na Argélia, no Vietnã. Eles [os revolucionários] acreditam que podem vencer. Olha o Vietnã, olha Cuba: eles conseguiram.

Marighella era diferente. Era de Salvador, um negro mulato. Se você compara Che Guevara com Marighella, eram muito diferentes: Marighella era um poeta, amava música, era engraçado, gostava de Carnaval. É por isso que você precisa de um cara como Seu Jorge para o papel: alguém que tenha uma luz dentro de si. Ele não tinha uma personalidade sombria; Marighella era um sujeito reluzente.”

Ameaças

Tobias Schwarz/AFP
Wagner Moura exibe placa em homenagem a Marielle Franco na exibição de “Marighella” em Berlim Imagem: Tobias Schwarz/AFP

“Eu me sinto ameaçado, mas não sinto que alguém vá tentar me matar. Mas tenho receio por [pessoas como o deputado federal pelo PSOL-RJ, Marcelo] Freixo. Veja a Marielle [Franco]: negra, lésbica, esquerdista, 50 anos depois de Marighella, outro negro esquerdista. Foi assassinada em um carro, provavelmente por agentes do Estado. 50 anos depois!”

Eu respeito pessoas que, em momentos difíceis, se expõem, dizem aquilo que precisam dizer. É muito mais fácil estar em um lugar confortável, protegido, longe da controvérsia, mas é por isso que respeito tanto Marighella: porque mesmo entre as pessoas da esquerda, que lutaram contra a Ditadura, como [Leonel] Brizola e Miguel Arraes, que são pessoas que eu também respeito, eles lutaram estando fora, no exílio.

O Marighella ficou. Mesmo sabendo dos riscos. Eu respeito e admiro muito essa postura. Não estou me comparando a ele, mas eu tento, na minha vida, ser como ele mesmo diz no filme: amoroso, leal e honesto. Eu realmente tento ser honesto comigo mesmo, com aquilo que eu penso e em que acredito. E eu não poderia ser feliz se não fosse assim.”

Jean Wyllys parabeniza Wagner Moura

UOL Entretenimento

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