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"A Plague Tale: Innocence" é um retrato sombrio da Europa na Idade Média

Se houve períodos de tranquilidade na Europa durante a Idade Média, certamente o Século XIV não foi um deles. Em meio à Guerra dos Cem Anos, peste bubônica e perseguições da Inquisição, o continente viveu uma de suas épocas mais sombrias.

É justamente nesse cenário opressor que “A Plague Tale: Innocence” (PC, PS4, Xbox) tenta contar uma história pouco comum nos games. Aqui, você não está em batalhas hollywoodianas, nem preocupado com qual a próxima peça no upgrade do seu rifle sniper. Em “A Plague Tale”, você é o elo mais fraco. Aqui, sua única missão é sobreviver, junto com seu irmão mais novo.

“De fato, ter a Idade Média como cenário é algo que veio logo de cara, especialmente porque é uma ambientação um tanto subaproveitada pela indústria de games. Temos então a Guerra dos Cem Anos, que é uma espécie de moldura para o jogo. O ponto central do game, no entanto, é a jornada de Amicia e Hugo pelo mundo”, explica Kevin Choteau, diretor do jogo desenvolvido pelo estúdio francês Asobo Studios, em entrevista a UOL Jogos.

Uma heroína e seu irmão

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Os irmãos precisam fugir de casa quando soldados tentam levar Hugo, portador de uma misteriosa doença Imagem: Divulgação

Você controla uma adolescente, Amicia, e seu irmão menor, Hugo. Ambos precisam fugir de sua casa após ela ser invadida por soldados que queriam levar Hugo – portador de uma misteriosa doença – para a Inquisição. Então logo de cara você já tem contato com as maiores ameaças daquela época.

No decorrer do jogo, vemos como a relação dos irmãos evolui. Amicia também amadurece. “Ela é uma jovem com emoções e sentimentos complexos. Ao criá-la, nós apenas tentamos fazer uma personagem que nós pudéssemos amar. Ela é uma espécie de ‘menina moleque’, que não se encaixa com o conceito de uma garota da nobreza da época”, aponta Choteau.

Essa representação, inclusive, faz com que não haja vestígios de sexismo na retratação de Amicia. “Ela confronta a imagem que tem de sua mãe, com quem possui um relacionamento complicado. Ela pode ser dura com Hugo, mas também doce e protetora. Aos poucos, ela se torna feroz contra seus inimigos. Ela não é uma guerreira, mas uma garota que precisa se adaptar à realidade e que fará de tudo para salvar seu irmão”.

“Nós não pensamos sobre uma representação sexista ou não, mas sim sobre representar o amor. E o amor não tem gênero”.

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Hugo é fundamental na solução de alguns enigmas, e pode ser controlado de forma mais básica Imagem: Divulgação

Ratos: uma força da natureza

A representação da época não seria completa sem a Peste Negra. Na história real, tratava-se de uma doença altamente contagiosa e letal (pessoas contaminadas morriam em menos de uma semana) transmitida por pulgas, ratos e piolhos. Em “A Plague Tale”, no entanto, a doença ameaça os personagens na forma de hordas de ratos capazes de matar e comer tudo que encontram pela frente – e você terá contato com eles, por mais que não goste da ideia.

Choteau afirma que os ratos, apesar de ameaçadores e letais, não são, necessariamente, inimigos da dupla de protagonistas. “Os ratos são, definitivamente, uma força da natureza. Eles não são aliados, nem inimigos, são apenas ratos e não fazem distinção se você é uma criança ou um adulto, um soldado ou um civil. Você precisa apenas aceitá-los e lidar com eles da melhor forma possível”, explica, completando que a presença deles no jogo age como uma representação da Peste Negra digna de pesadelo, quando “você está com medo e não encontra uma explicação racional para o que acontece ao redor”.

“Nós precisávamos de algo maior, algo que estivesse acima de todo o resto”.

Os ratos tendem a fugir da luz e, com o tempo, o jogador aprende a manipular o comportamento deles para atacar os inimigos e abrir passagens.

Puzzle, ação e furtividade

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No lugar de armas de fogo, uma atiradeira que pode ser aprimorada no decorrer da aventura Imagem: Divulgação

“A Plague Tale” é um game que poderia ser enquadrado em algumas categorias distintas. Com visão em terceira pessoa, há uma grande ênfase na sobrevivência e na furtividade, com pitadas de puzzle (ou quebra-cabeças) e doses pontuais de ação. A principal ferramenta de Amicia é sua atiradeira, que é capaz de ferir inimigos – acertos na cabeça são letais – e também pode ser usada na solução de quebra-cabeças. Para sobreviver, será preciso usar os elementos do ambiente, bem como passar por inimigos sem levantar suspeitas usando caminhos alternativos, vegetação alta etc.

Mesmo durante combates, como quando você enfrenta um inimigo com armadura pesada logo nos primeiros minutos de jogo, há mecânicas de puzzle. Nessa ocasião específica, é preciso usar a sua arma para arrancar as peças de armadura do inimigo antes de desferir um golpe fatal. A atiradeira, aliás, pode ser aprimorada no decorrer do jogo, com materiais encontrados pelo cenário.

Ratos vão devorar pessoas, pessoas vão morrer. Haverá pequenas pausas para respirar, esperamos que elas compensem a brutalidade do jogo.
Kevin Choteau

Hugo também é fundamental na solução de alguns enigmas, e o jogador pode controlá-lo de forma básica, com comandos para ficar em um lugar ou seguir o jogador. O pequeno também pode realizar ações como se esgueirar em pequenos espaços para liberar passagens para a sua irmã.

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No ambiente hostil, seções de puzzle, sobrevivência e furtividade conduzem a jornada dos irmãos Imagem: Divulgação

Será que existe final feliz?

Ao longo do jogo, você não terá muitos momentos de calma. “Você irá se sentir oprimido enquanto joga. É um jogo muito sombrio, em todos os sentidos da palavra. Ratos vão devorar pessoas, pessoas vão morrer. Haverá pequenas pausas para respirar, esperamos que elas compensem a brutalidade do jogo”, salienta Choteau.

No catálogo de jogos de guerra, portanto, “A Plague Tale” tem uma proposta mais próxima de “This War of Mine” (2014) e “Valiant Hearts” (2014), jogos com carga dramática e questões sociais de fundo.

Entre prós e contras, “A Plague Tale: Innocence” vai bem, especialmente pela trama e pela sua ambientação. De fato, o jogador terá muitas vezes um sentimento de desesperança, como se a jornada dos personagens dificilmente encontrasse um final feliz. Mesmo assim, é difícil não se emocionar com Amicia e Hugo e tentar avançar, como se estivéssemos tentando salvá-los. E isso, por si só, é um tremendo mérito.

Nota: 8

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Amicia não se encaixa no conceito de uma garota da nobreza da época, diz o diretor Kevin Choteau Imagem: Divulgação

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