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Componente da maconha pode ajudar no tratamento de dependência química, sugere estudo

Um novo estudo divulgado nesta semana é o mais recente a sugerir que a maconha – ou pelo menos um componente essencial dela – pode ajudar pessoas que lutam contra o vício. Descobriu-se que pessoas com dependência química sentiram menos necessidade de consumir drogas quando receberam canabidiol, ou CBD, comparado com as que receberam um placebo. O CBD também ajudou a acalmar e reduzir a ansiedade dos participantes.

O canabidiol é a parte da cannabis que não deixa o usuário em estado alterado. Ele já é utilizado no tratamento de alguns tipos de convulsões, como um medicamento aprovado no ano passado chamado Epidiolex. Mas existem muitos outros benefícios para a saúde, como alívio de estresse ou prevenção à demência, que ajudaram a semear uma pequena indústria de CBD.

Muitos desses produtos e alegações provavelmente não passam de um contrassenso exagerado. Mas algumas evidências têm surgido mostrando que o canabidiol pode ajudar com a crise de opioides. Algumas pessoas estão utilizando regularmente a cannabis como um substituto parcial dos analgésicos opioides para controlar a dor – um uso que os pesquisadores também estão começando a estudar em laboratório. E outras pesquisas, realizadas inclusive pelos autores do estudo atual, mostraram que o CBD pode amenizar os efeitos da abstinência e desejo em animais dependentes de opioides que são afastados da droga.

O teste padrão para se confirmar uma teoria é realizar um ensaio clínico duplo-cego, randomizado e controlado por placebo. E foi isso que os autores por trás deste estudo, publicado no American Journal of Psychiatry, tentaram fazer.

Para o teste, eles recrutaram 42 homens e mulheres que sofriam de dependência química, especificamente heroína, mas que no momento não usavam a droga. Metade deles recebeu aleatoriamente comprimidos contendo CBD (na verdade, apenas Epidiolex), em duas doses, enquanto o restante tomou um placebo. Durante uma semana, os voluntários tiveram que assistir a vídeos de três minutos de duração, contendo apenas imagens neutras, como sons da natureza ou vídeos mostrando instrumentos de drogas, como seringas ou sacos de pó, que remetiam à heroína. O segundo conjunto de vídeos, imaginava-se, faria com que os voluntários desejassem a droga e/ou ficassem ansiosos.

Os participantes do teste receberam CBD por três dias. Depois, foram analisados os sintomas de ansiedade e desejo pós-vídeo em três períodos: imediatamente após tomarem uma pílula, um dia depois de uma sessão de CBD, e uma semana após a última sessão. Em todos esses cenários, os pesquisadores descobriram que as pessoas que recebiam CBD relataram menos desejo e ansiedade, em média, do que o grupo placebo, enquanto medições objetivas, como frequência cardíaca e níveis de cortisol na saliva (frequentemente utilizadas para indicar estresse agudo) também foram menores.

“O estudo definitivamente demonstra que o canabidiol pode ter um efeito significativo em certos aspectos do transtorno de uso de opióides”, afirmou Ziva Cooper, diretora de pesquisa da Cannabis Research Initiative na Universidade da Califórnia em Los Angeles, e que não participou do estudo, ao Gizmodo. “E o que é realmente importante é que isso é uma replicação de trabalhos anteriores, em um grupo muito menor, feito pelos pesquisadores”.

As implicações do estudo são definitivamente grandes. Existem vários medicamentos já utilizados para controlar o transtorno do uso de opioides e prevenir recaídas, particularmente a metadona e a buprenorfina, mas nem todos podem acessar facilmente esses medicamentos, e há poucos centros de reabilitação que os oferecem como tratamento. Isso se deve em parte ao estigma que envolve esses dois remédios, ambos opioides. Este estigma é infundado, no entanto, porque nenhum deles causa dependência se utilizados adequadamente sob supervisão médica, e as pessoas que tomam essas drogas ainda experimentam menos recaídas ou overdoses de opioides fatais do que aquelas que tentam parar abruptamente por conta própria.

Mas opções não-opioides, como o CBD, só poderiam facilitar o acesso das pessoas ao tratamento que precisam. E, embora a maconha e o CBD ainda não sejam considerados totalmente legais, o fato de o Epidiolex ter sido usado com sucesso neste estudo também é importante, pois significa que os médicos poderiam prescrevê-lo sem muitas complicações, visto que o medicamento já é aprovado pela FDA (Food and Drug Administration).

Os autores alertam que o estudo ainda é “exploratório”, portanto há mais pesquisas a serem feitas antes que possamos ter certeza do potencial do canabidiol como um tratamento para dependência química.

Uma limitação importante, por exemplo, é a duração do estudo. A medicação é apenas uma parte do tratamento típico para aqueles que se recuperam da dependência química, em conjunto com o aconselhamento comportamental. Mas enquanto algumas pessoas podem precisar apenas de medicação por um curto período para administrar seus sintomas de desejo ou abstinência,  outras precisam de um regime de longo prazo, ou mesmo vitalício. Portanto, qualquer medicamento que tenha como objetivo ajudar a combater o vício, idealmente, precisa funcionar também a longo prazo. Presume-se que o CBD não cause efeitos colaterais graves (e realmente não causou neste estudo), independentemente de por quanto tempo ele é utilizado, mas ainda não há informações sobre a sua eficácia contínua.

Cooper também observou que há outros aspectos do transtorno por uso de opioides que ainda não foram testados neste estudo, como o risco geral de recaída. E os participantes ​​eram pessoas relativamente estáveis, não aquelas que acabaram de abandonar a heroína e que precisavam de um tratamento maior para administrar seus desejos. Qualquer um que pense em usar o CBD para automedicar seu transtorno de uso de opioides, acrescentou Cooper, também deve lembrar que muitos produtos de consumo simplesmente não contêm as doses de CBD suficientes encontradas no Epidiolex, nem são testadas em nenhum lugar para garantir sua segurança.

“Eu não acho que as pessoas necessariamente observarão os mesmos efeitos de tomar uma dose menor”, disse Cooper.

Dito isso, certamente há boas razões para ter esperanças.

“Uma medicação não opioide bem-sucedida aumentaria significativamente as opções existente para ajudar a reduzir o crescente número de mortes, altos custos de saúde e limitações de tratamento impostas por regulamentações governamentais rígidas em meio a essa persistente epidemia de opioides”, disse o autor Yasmin Hurd, professor de Neurociência, Psiquiatria e Farmacologia e Sistemas Terapêuticos na Escola de Medicina Icahn no Monte Sinai, em comunicado.

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