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Novo Hellboy enterra uma das adaptações de HQs mais promissoras do cinema

É difícil entender a lógica dos produtores de Hellboy. Um diretor vencedor do Oscar estava disposto a encerrar sua trilogia com a criatura infernal, trazendo no pacote o ator que se tornou uma das personificações mais perfeitas de um personagem das HQs para o cinema. Mas algum gênio achou que não seria bom negócio colocar o filme nas mãos de Guillermo Del Toro, e optou por um reboot que troca a inventividade e elegância das duas aventuras com Ron Perlman por trás da maquiagem de demônio por uma ideia derivativa e vulgar. A “desculpa” seria uma vontade de anabolizar o potencial nas bilheterias, já que os dois filmes anteriores, de 2004 e 2007, renderam 60 e 76 milhões de dólares nos Estados Unidos – a soma global compensou o investimento modesto. Adoraria ter um papo com os produtores Lawrence Gordon e Lloyd Levin, já que o novo filme estacionou em 22 milhões.

Vamos, então, tirar o elefante da sala: Hellboy, versão 2019, é um desastre. Nas mãos do apenas competente Neil Marshall (de Abismo do Medo, que também dirigiu episódios de Game of Thrones, Westworld e Constantine para a TV), a aventura é mais pobre, mais feia e mais confusa. Para economizar no orçamento, Marshall não teve o melhor time à disposição, e o resultado salta em cena. Os efeitos visuais nem sempre funcionam. O design das criaturas não traz um sopro de criatividade, contentando-se com monstros genéricos, como sobras de um Van Helsing da vida. A coisa é tão largada que, no clímax do filme, quando supostamente abre-se uma ruptura do inferno na Terra, em vez de caos temos uns bichos esquisitos tocando o terror em meia dúzia de ruas em Londres. Isso sem o menor impacto na narrativa, sem alterar um centímetro da trama principal. Isso tem nome, e é preguiça.

Milla Jovovich é uma bruxa malvada aí….

O que funciona muitíssimo bem é David Harbour, o xerife Jim Hopper de Stranger Things, enterrado atrás de uma maquiagem eficiente e dando seu melhor para conferir personalidade ao personagem e algum peso dramático ao roteiro. Como Hellboy, Harbour parece se divertir (mais do que a gente do lado de cá) desde a primeira cena, quando enfrenta um colega da B.P.R.D. – o Bureau de Pesquisas e Defesa Paranormal – que se deu mal ao caçar vampiros no México. Daí pra frente o texto parece cópia carbono do Hellboy que Guillermo Del Toro fez em 2004, com o personagem tentado a abraçar seu destino como o demônio causador do apocalipse na Terra. Se o místico russo Rasputin era o gatilho então, agora o trampo recai sobre Milla Jovovich. A atriz, que deve ter um quadro seu envelhecendo no sótão de casa, é Nimue, a Rainha de Sangue, uma feiticeira imortal desmembrada pelo poder da espada Excalibur (aquela empunhada pelo Rei Arthur) que espera o momento de ser restaurada para instaurar um império infernal em nosso planeta.

A essa altura, comparar os filmes é inevitável, e o trabalho de Marshall sai perdendo de lavada. Del Toro havia construído um time de coadjuvantes tão interessantes quanto o protagonista. Dessa vez, Hellboy tem como parceiros uma médium adolescente (Sasha Lane) e um transmorfo irritante (Daniel Dae Kim), que só completa sua mutação lá pelo terceiro ato, provavelmente por motivos de grana curta no orçamento. Existe uma tentativa de estabelecer uma conexão de pai e filho com o professor Broom (Ian McShane, que você pode ver ainda nesse fim de semana no infinitamente superior John Wick 3), mas a ligação emocional simplesmente não está lá, apesar dos esforços de Harbour e McShane. O que sobra são batalhas extremamente gráficas entre Hellboy e o demônio da vez, com sangue e vísceras banhando a tela – o filme, ao contrário de seus antecessores, traz censura R, proibido para menores, com certeza uma tentativa de garfar o público de Deadpool e aqueles fãs ranhetas que acreditam que qualidade se mede por volume de hemoglobina.

O Hellboy de Guillermo Del Toro: a gente era feliz e não sabia….

O curioso é que o criador de Hellboy, Mike Mignola, teve maior influência no novo filme do que nos dois dirigidos por Del Toro. As histórias de bastidores são tensas, com o desenhista sem esconder sua insatisfação com o rumo dado pelo responsável por O Labirinto do Fauno e A Forma da Água à sua criação. É certo que, nas páginas das HQs, as aventuras do demônio e seu universo tem parentesco com a literatura pulp salpicada de elementos sobrenaturais – seria Conan interpretado por John McLane sob a ótica de Dante. Os filmes de Del Toro são um animal diferente: uma fantasia gótica mergulhada em mitologia e simbologia, que esconde a admiração do pai pelo filho, o esforço para um sujeito fugir de seu destino e, por fim, o romance de duas “aberrações” que jamais se encaixam na sociedade “normal”. As ideias de Mignola funcionam à perfeição no papel, mas nem sempre traduzem bem no cinema – e o novo Hellboy, que traz referências a uma dúzia de histórias originais do personagem, é a maior evidência desse descompasso. Uma pena. Em um mundo de heróis (mais ou menos) certinhos, um personagem tão fora da curva como Hellboy faz toda diferença. Mas quando a coisa é apressada para faturar um trocado rápido, a imaginação não tem a menor chance.

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